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À SOMBRA DAS ÁRVORES… RESPIRANDO AR PURO: EDUCAÇÃO E DIVERTIMENTOS JUNTO À NATUREZA NA SÃO PAULO DOS ANOS 1920

Edição Atual

À SOMBRA DAS ÁRVORES... RESPIRANDO AR PURO: EDUCAÇÃO E DIVERTIMENTOS JUNTO À NATUREZA NA SÃO PAULO DOS ANOS 1920


UNDER THE SHADE OF TREES… BREATHING FRESH AIR: EDUCATION AND AMUSEMENT IN NATURAL SPACES IN SÃO PAULO OF THE 1920’S


Carmen Lucia Soares
Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil.
Samuel Ribeiro dos Santos Neto
Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil.

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RESUMO:

O presente artigo é parte de uma pesquisa que examina, a partir de registros da imprensa, o advento de novas práticas educativas e de divertimento junto à natureza na cidade de São Paulo dos anos 1920. As fontes do estudo foram constituídas por textos e imagens dos jornais O Estado de S. Paulo e o Correio Paulistano, publicados entre 1920 e 1929. Partindo da perspectiva teórica da história cultural, o objetivo é compreender as relações entre educação, divertimentos e vida ao ar livre presentes no quotidiano paulistano do período aqui recortado. Por fim, deseja-se contribuir para uma compreensão do lugar que ocupou um ideário de vida ao ar livre na constituição de uma nova ordem urbana e sua expressão em distintas esferas da vida individual e coletiva.

Palavras-chave: Educação; Vida ao ar livre; Natureza São Paulo


ABSTRACT:

This paper is part of a research that analyzes, based on press records, the onset of educational and amusement practices in natural spaces in the city of São Paulo during the 1920’s. The sources were constituted by texts and images from the newspapers O Estado de S. Paulo and Correio Paulistano, published between 1920 and 1929. From the theoretical perspective of cultural history, our objective is to comprehend the relations between education, amusements and outdoor life present in the everyday life of the inhabitants of São Paulo during this period. Finally, we wish to contribute to a comprehension of the role taken by an ideation of outdoor life in the constitution of a new urban order and its expression in distinct spheres of individual and collective life.

Keywords: Education; Outdoor life; Nature; São Paulo.


INTRODUÇÃO

Por esta canícula excessiva que nos tem suppliciado ultimamente, é que se faz sentir mais em S. Paulo a necessidade de bosques, onde a população possa respirar melhor e retemperar-se dos suores e canseiras do trabalho.

A maior parte das grandes cidades tem, quasi no centro, bosques magnificos que são frequentadissimos pelo povo. Seria ocioso enumerar as riquezas que neste capitulo, contam Berlim, Pariz, Londres, Vienna e quasi todas as cidades da Allemanha. Francfort, que não é maior que S. Paulo, possue um bosque que rodeia o centro, constituindo em excellente elemento de hygiene e recreação para o povo.

S. Paulo, entretanto, com os seus 700.000 habitantes, com toda a sua pujança de cidade que caminha, como lá diz o outro, a passos agigantados, não conta, entretanto, nada, á beira do centro, que se possa assemelhar a um bosque, onde a população oxygene os pulmões intoxicados pela poeira.

(A NECESSIDADE…, 1925, p. 3)

Durante a década de 1920, a população paulistana, ou ao menos parte dela, teve seu cotidiano marcado por formas muito específicas de contato com a natureza, manifestadas em relações que punham os corpos e as subjetividades em diálogo com os elementos do mundo natural: o ar fresco, as árvores, as águas em seus muitos formatos, os raios solares. Tal diálogo traduzia-se em práticas diversas, das mais sistematizadas àquelas marcadas pela espontaneidade e pelos fazeres rotineiros. Jogos esportivos, ginásticas, festejos, danças, piqueniques. Aulas de Educação Física nas escolas, constituídas de exercícios e jogos ao ar livre evocados com regularidade. Banhos de sol, curas pelas águas, tratamentos em áreas verdes afastadas, excursões ao ar livre. Divertimentos1 variados nos rios, nas várzeas, nas matas, enfim, nas manchas verdes da geografia urbana do período, também presentes nos parques, jardins e bosques, espaços de uma natureza fabricada pelo próprio ideário das cidades modernas.

Ao olharmos para essas práticas em uma perspectiva histórica, tentamos identificar e interpretar as representações que estavam em jogo naquele cotidiano. Encaramos essas práticas, portanto, não apenas como condutas, deslocamentos e gestos sequenciados, executados por indivíduos em determinado contexto, mas como expressão de ideias, concepções, percepções e afetos. Dialogavam com representações específicas e de grande destaque na cultura da São Paulo daquele período, envolvendo a saúde, a educação, a estética, em suma, o corpo e os elementos que o rodeavam.

No presente trabalho, buscamos fazer uma leitura dessas representações a partir das publicações da chamada grande imprensa paulistana do período, especificamente os jornais O Estado de S. Paulo e o Correio Paulistano. As reportagens, notas, colunas, publicidades e imagens de tais periódicos, quando interpeladas por nosso problema de pesquisa, revelaram de maneira vestigial um apanhado de práticas – corporais, de saúde, de divertimento e de educação – que se desenrolavam ao ar livre nos espaços da São Paulo dos anos 1920. Além disso, demonstram também o conjunto de representações que atravessava essas práticas e o seu tratamento pela imprensa, notadamente no que diz respeito à ideia muito particular de natureza que era articulada naquele momento.

A natureza parece ser a cada época, redescoberta, ou, mesmo inventada. Seus benefícios são descritos com grande potencialidade para adiantar-se aos males desencadeados pela nova ordem urbana. Ela vem sendo, pois, compreendida como salvaguarda, prevenção, lugar que educa e fabrica novas sensibilidades. Assim, parece não haver dúvidas de que compreensões e conceitos acerca da natureza são construções históricas e, portanto, carregam em si as marcas do tempo em que foram elaboradas, assimiladas, esquecidas ou abandonadas. Lenoble (1990), num texto clássico escrito em 1969em que tece, longamente, uma história da ideia de natureza, título da obra, nos instiga a pensar que este conceito somente ganha sentido, ou, todo o sentido que pode comportar, na história, pois exprime muito mais uma atitude dos seres humanos do que propriamente a passividade de uma realidade.

Em diferentes momentos da história, portanto, se podem apreender transformações mais profundas dessa atitude humana no que diz respeito ao mundo natural. Thomas (1988) em outro texto clássico, O homem e o mundo natural, vai afirmar que entre os anos de 1500 e 1800 teriam ocorrido transformações profundas “[…] na maneira pela qual homens e mulheres, de todos os níveis sociais, percebiam e classificavam o mundo natural ao seu redor” (p.18). Esse período marcaria também o surgimento de novas sensibilidades tanto em relação aos animais, quanto às plantas e, mais amplamente, à paisagem.O deslocamento de sentidos em relação ao mundo natural trouxe consigo possibilidades múltiplas e inéditas de interação com uma natureza intocada, campos domesticados e cidades. Produziu nos indivíduos relacionamentos novos com a fauna e a flora e, para além disso, consigo mesmos e com outros seres humanos.

Desse modo, compreender a ideia de natureza e as represen-tações que a rodeiam, bem como as diferentes práticas culturais por ela orientadas, passa antes de tudo por um olhar histórico que se ocupe das percepções, das sensibilidades, enfim, das dimensões afetivas da relação dos indivíduos com o mundo ao seu redor. Tal perspectiva orientou os estudos de Alain Corbin na interpretação do olfato e do mundo dos odores (1987), do surgimento da praia como território de prazeres e divertimento (1989), da mudança nas relações entre os seres humanos e a paisagem (2001), e das sensibilidades e representações sobre as árvores ao longo da história (2013), entre outros. Alinhados a essa percepção, podemos afirmar que o surgimento de um novo ideário de natureza, com seus usos e sentidos particulares, produziu também, nos sujeitos históricos, modos distintos de ver, sentir e utilizar o próprio corpo. Um novo corpo, em novas relações com a natureza, permitiu que determinadas regras e técnicas propiciassem, ao lado de experiências totalmente inéditas, liberdades e sensações antes inacessíveis ou inexistentes. Nesse sentido, podiam ser vivenciados novos modelos de educação, de gestos, de prazeres em seu contato mais íntimo com os elementos da natureza.

Embora caracterizado pela longa duração, o processo de fabricação da natureza urbana, reinterpretada, encontrou sua expressão máxima, poderíamos dizer, entre meados do século XIX e início do XX (VILLARET, 2005SIROST, 2009).Este processo, ainda que fortemente ligado a ideários e concepções nascidas em países europeus, expressou-se também em territórios fora do velho continente, notadamente no imaginário e nas práticas das elites urbanas. Nesse período, a valorização de uma natureza controlada e planejada, que cura e regenera, passou a ser pauta de discursos científicos e institucionais, ganhou contornos mais influentes e gradualmente legitimou-se perante a sociedade. Falava-se sobre essa natureza no pensamento médico, nas teorias pedagógicas, nas políticas públicas, nos projetos urbanísticos, enfim, também nas artes e na literatura. O mundo natural e o lugar que o corpo ocupa ou deveria ocupar em seu seio tornaram-se, dessa forma, parte de um conjunto de saberes preocupado em delimitar os projetos da sociedade moderna e de suas cidades que, passo a passo, tornavam-se mais complexas e populosas.

No Brasil, o crescimento urbano e as próprias preocupações sobre a natureza que o acompanham dão-se, de modo mais marcante, nas primeiras décadas do século XX, principalmente a partir dos anos 1920. Nessa década, a cidade de São Paulo passou por um franco processo de desenvolvimento que já indicava o caráter daquela que seria a maior metrópole do país: houve o aumento expressivo de indústrias e estabelecimentos comerciais, reforçando sua importância econômica (SAES, 2004SOUZA, 2004); o incremento populacional, ultrapassando 500.000 habitantes, junto à consolidação da cidade como polo receptor de imigrantes, contando com 35% de estrangeiros já em 1920 (HALL, 2004); a verticalização, a expansão viária e uma profusão de projetos de intervenção urbanística (SEGAWA, 2004); enfim, uma ebulição também política,expressa em fatores como a forte atuação do movimento operário e os conflitos ligados ao movimento tenentista em 1924 (QUEIROZ, 2004). De modo crescente, a cidade de São Paulo tornava-se referência nacional em muitos aspectos, num contexto em que poucas cidades despontavam no território brasileiro, predominantemente agrário.

No campo da cultura, a cidade também efervescia. Parâmetros sociais e estéticos eram postos em xeque pelo vanguardismo dos modernistas. Uma profusão de divertimentos surgia e encorpava-se, ganhava espaço no cotidiano paulistano, expressando-se em formas diversas de significar e frequentar os espaços públicos (RAGO, 2004SEVCENKO, 2003): cafés, teatros, restaurantes, cinemas, lojas especializadas, salões de baile, clubes, cassinos, confeitarias, etc. Incluíam-se nesse rol os parques planejados, os bosques, as margens dos rios e demais espaços ao ar livre, habitados agora por novas práticas. Os esportes e seus ambientes por excelência, os clubes esportivos, proliferavam-se, instituíam-se como símbolos de modernidade e juventude e marcavam presença nos grandes jornais e publicações especializadas. Nos rios e represas, os eventos e competições esportivas construíam novos circuitos de sociabilidade (JORGE, 20062016NICOLINI, 2001), produzindo usos e sentidos distintos daqueles que já existiam anteriormente, desde os primórdios da cidade, ligados ao trabalho, ao transporte, às necessidades básicas e aos divertimentos cotidianos.2

No âmbito das escolas brasileiras, os anos 1920 marcam também a gradual consolidação da entrada de parte do pensamento higienista nos currículos, nas práticas pedagógicas, nos manuais de ensino e na própria arquitetura dos colégios, encarando tais elementos como partes de um projeto de intervenção sobre os corpos, as emoções e a moral dos alunos (ROCHA, 200920152017). Intervenção intimamente ligada a um projeto de nação, no qual se imaginava um Brasil higienizado, fortalecido fisicamente e moralizado (GÓIS JUNIOR, 2013). Nesse sentido, dois aspectos ganham força nos discursos pedagógicos e no seio dos próprios debates higienistas: a Educação Física e o contato controlado com a natureza.

Podemos dizer que, de certa forma, a década de 1920 é o preâmbulo do processo de organização e consolidação da influência de determinados saberes que, inclusive como políticas públicas, preocupavam-se com o lugar da natureza nas cidades e, mais importante, o lugar de uma educação do corpo nessa natureza reinventada. É assim que vemos, nos anos 1930 e 1940, uma institucionalização acentuada da Educação Física e dos discursos que reforçam sua importância para o progresso da nação. Nesse período, multiplicam-se em São Paulo espaços para a cura, educação e fortalecimento dos corpos, como parques infantis, colônias de férias, sanatórios e escolas ao ar livre (DALBEN, 20092014). Há também, confirmando essa nova relação com o mundo natural, todo um circuito de tratamento e divertimento que se organiza em torno das estâncias hidrominerais e suas águas curativas (MEDEIROS, 2016MARRICHI, 2009).

A evocação da vida ao ar livre e do lugar dos elementos da natureza na preservação da saúde e vigor dos corpos, passou a ser considerada como parte fundamental de um regime de vida sadio. Um organismo forte era forjado pelos desafios que os elementos da natureza propiciavam, e os benefícios dos elementos da natureza, da ideia de vida ao ar livre, transformaram-se num campo de saber mais complexo do que até então se revelara, pois, uma medicina naturista fortalecia-se e, pouco a pouco, incorporava os exercícios físicos e jogos ao ar livre como terapêutica. A extensão de conselhos ao conjunto da população, a incorporação e divulgação dessas ideias no âmbito escolar e, especialmente na imprensa, em reportagens de autoria de médicos e higienistas, confirma que um novo desenho da natureza como constitutiva de práticas educativas – escolares ou não – estava em curso naquele momento.

Sem dúvida, as décadas de 1930 e 1940 constituem um período no qual o ato de ir ao encontro da natureza, dentro ou fora das cidades, tornou-se imperativo para a educação do corpo, a formação moral, a cura das doenças e fraquezas, o divertimento visto como útil e sadio, enfim, para a adoção das condutas recomendadas pelos novos saberes institucionais e suas reverberações em diferentes campos. Todo esse ideário, legitimado e integrado ao projeto brasileiro de nação, já circulava nos anos 1920, embora com grau de institucionalização mais incipiente. Os jornais, em especial, pareciam ser veículos eficientes para a difusão de novas representações de natureza e práticas diversas ao ar livre, especialmente naquela fremente década de modificação de ideias, valores e costumes. Tais fenômenos culturais tiveram em São Paulo, cidade pulsante, um local privilegiado de expressão.

Essa ordem urbana nascente, que fabricava alguns espaços e reinventava outros, que nutria uma série de imaginários sobre a natureza e produzia novos usos e sentidos para o corpo, trazia consigo novas formas de sentir e perceber o ar fresco, as matas, as águas dos rios e os raios de sol. Nasciam, portanto, sensibilidades inéditas, expressas em práticas sistematizadas vinculadas a uma ideia curativa de natureza, que apontava para a modernidade e o progresso. Por outro lado, esse ideário travava contato também com práticas cotidianas, mais espontâneas, que já existiam anteriormente e permaneciam acontecendo nos recantos verdes de uma cidade que iniciava sua metropolização. Várzeas, trechos de mata virgem, chácaras e córregos, partes de uma natureza não domada, distinta dos jardins planejados e dos parques urbanos, são assimiladas pelos discursos, reinterpretadas, habitadas por novos personagens e novos fazeres.

Assim, quando falamos sobre vida ao ar livre, fazemos referência a uma multiplicidade de manifestações que se davam no período. A expressão, afinal, guarda sentidos diversificados e vincula-se a um conjunto relativamente indiferenciado de atividades feitas junto à natureza. A vida ao ar livre contemplava esportistas, viajantes, médicos, professores, pescadores, estudantes, curistas, tuberculosos, escoteiros, entre muitos outros e abrangia atividades sistematizadas e espontâneas que atravessavam várias esferas do viver. Nas escolas, evocava-se um novo modelo de educação, no qual se buscava sanar a estafa mental pela valorização do tempo do recreio, do espaço do pátio, das excursões, da Educação Física e, de modo geral, do contato com o ar livre (SOARES, 2016).

Em um jogo dinâmico de representações, além de velhas práticas ganharem novos sentidos, outras nascem e, rapidamente, sofrem apropriações diversas por parte dos sujeitos históricos. O ideário da natureza urbana e as práticas corporais, educativas e de divertimento que o acompanham infiltram-se ou, melhor dizendo, transbordam para o mundo das artes, da moda e do consumo; para a esfera dos prazeres, dos desejos e da estética, superando suas expressões absolutamente controladas, institucionais e verticalizadas.

Assim, alinhados à perspectiva teórica da história cultural e por meio da síntese das discussões desenvolvidas por Roger Chartier (2002) e Michel de Certeau (2014), entendemos haver uma indissociabilidade e uma codeterminação entre os conceitos paradigmáticos de práticas e representações. É necessário se ter em mente que uma representação circulante em determinado contexto histórico se liga, sempre, a um conjunto de interesses, diretos ou indiretos, conscientes ou inconscientes, do grupo social que a produziu. Por outro lado, embora essas representações tenham a capacidade de condicionar determinadas práticas culturais, os fazeres dos agentes históricos não são passivos: há apropriações, desvios, desconfianças, resistências, reinvenções, táticas e estratégias. Em suma, entendemos que há disputas permanentes e redefinições constantes entre o que se representa e o que se pratica, de modo que não é possível operar tais elementos de modo isolado.

Nesse sentido, a escolha dos jornais da chamada grande imprensa paulistana para constituir as fontes deste estudo buscou dar conta da complexidade de nosso objeto. Como destaca Luca (2005), não devemos considerar as publicações da imprensa como retratos fidedignos de fatos objetivos, mas antes como uma seleção, consciente ou não, de determinadas representações e versões do real, cercadas de intencionalidades e interesses. Por meio de seus vestígios, na forma de reportagens, colunas, notas, publicidades e imagens, foi possível observar de que forma a vida ao ar livre e suas manifestações educativas do corpo eram representadas e apropriadas no imaginário e no cotidiano paulistanos da década de 1920. Em suas letras miúdas, uma nova urbanidade ganhava espaço e difundia-se. Assim, extraímos das páginas dos jornais as diversões esportivas, bailes, passeios, piqueniques realizados ao ar livre, principalmente em áreas verdes como parques e bosques. Extraímos também o lugar de proeminência que ocupam os raios solares na prescrição de práticas curativas, em que os banhos de sol ganham destaque.

A IMPRENSA ANUNCIA: HAVERÁ DIVERSÕES ESPORTIVAS, LUNCH E BAILE AO AR LIVRE

Um grupo de rapazes da Associação dos Empregados no Commercio promove um grande “pic-nic” para o proximo domingo, no Parque Jabaquara. Já estão inscriptos 120 socios. (PIC-NIC, 1920, p. 2)

A nota divulgando o evento da Associação dos Empregados do Comércio, longe de ser um exemplo isolado, fornece-nos uma imagem emblemática do objeto desta pesquisa recortada aqui neste artigo: num domingo, um grupo de paulistanos divertia-se ao ar livre no Jabaquara, fruindo de um grande piquenique. Anúncios como esses e repetiam na imprensa, espremidos entre as longas e estreitas colunas, típicas do modelo de diagramação adotado no período. Os rapazes da associação, bem como muitos outros paulistanos de então, encontravam-se frequentemente nos parques e bosques da cidade para levar a cabo seus divertimentos ao ar livre.

Esses divertimentos, de diferentes gêneros, eram tão diversos quanto as ocasiões em que a expressão “ao ar livre” era utilizada nos textos dos jornais, compreendendo um espectro que ia da medicina à pedagogia, do esporte à moda e à publicidade, muitas vezes de maneira porosa e não tão claramente separável. Dentre as práticas ao ar livre repetidamente presentes na imprensa, destacavam-se os jogos e diversões esportivas, os bailes, os almoços ou lunchs, as apresentações de jazz ou orquestra, as sessões de cinema, as excursões e passeios, os piqueniques, os banhos de sol e os nados nos rios. Com frequência, tais atividades congregavam públicos consideráveis, e eram capitaneadas por instituições de naturezas distintas.

No ano de 1925, por exemplo, a União dos Trabalhadores Graphicos promoveu um festival esportivo no Parque São Jorge, com provas de ciclismo, atletismo, natação, futebol, além de jogos, sessões de cinema, quermesse, apresentações musicais e um passeio pelo rio Tietê (FESTIVAL…, 1925, p. 7). No bosque do Jaraguá, em 1928, o Portugal Club, instituição recreativa da colônia portuguesa em São Paulo, realizou um piquenique para seus associados, seguido de diversões esportivas e uma partida de “barra” disputada entre senhoritas (PORTUGAL…, 1928, p. 7). No Jabaquara, dois anos antes, a colônia italiana promovia um almoço campestre, como parte de uma extensa programação de recepção aos marinheiros italianos do encouraçado Roma, em visita ao Brasil (COURAÇADO…, 1926, p. 4).

A prática de se reunir ao ar livre para fazer refeições, em eventos formais ou informais, entre familiares, amigos ou companheiros de associação, parecia ter grande adesão. Era, também, normalmente acompanhada ou seguida de outras atividades, notadamente jogos e práticas esportivas. Os piqueniques passavam a ser em alguns casos, divertimentos institucionalmente oferecidos com periodicidade, como foi aquele do Club Athletico Municipal que, a exemplo de outras agremiações, passou a realizá-los em caráter trimestral aos seus associados (CLUB…, 1926, p. 8). Outras vezes, eram organizados em ocasiões comemorativas, tal qual o piquenique no Parque da Aclimação promovido num sábado, durante a Semana Ingleza, pela casa Mapping Stores aos seus trabalhadores, sem distinção de categoria:

Alguns bondes da Light, especialmente contractados, conduziram, ás 14 horas, ao bello logradouro, os empregados das secções de moveis e costuras, aos quaes era dedicada a reunião. Aguardava-os no jardim o sr. Wm. R. Dawson, gerente da casa, tendo sido, após a chegada dos auxiliares, dado começo ao programma, que constava de uma parte sportiva, de um lunch e de danças. (SEMANA…, 1920, p. 6)

Ao final do encontro, os trabalhadores do Mapping receberam os prêmios referentes às disputas esportivas e, provavelmente, retornaram alimentados às suas casas. Era o desfecho esperado na maior parte dos piqueniques do período. Diferente destino tiveram 16 pessoas, em 1929, feridas em grave acidente de trânsito quando voltavam para São Paulo, ao entardecer, após um piquenique em Vila Galvão, Guarulhos. Um dos três caminhões que transportavam a assistência do encontro de volta ao lar tombou devido à brusca manobra de ultrapassagem, feita em grande velocidade. Dentre os feridos, havia homens e mulheres de diferentes faixas etárias, como o operário José Costa Vida, de 67 anos, Iracema Pereira, de 9 anos, e Antonio de Jesus Martins, de24 anos e empregado do comércio (FIM DE…, 1929, p. 3).

Os parques e bosques frequentados pelo público paulistano nem sempre eram suficientemente acessíveis, tendo em vista a extensão territorial do município e uma estrutura viária e de transporte público ainda precária, de modo que, para frequentá-los era necessário, em muitas ocasiões, se deslocar por grandes distâncias. Os trabalhadores serviam-se, principalmente, dos bondes elétricos da Light. Os grupos sociais mais abastados, por sua vez, utilizavam os automóveis, tecnologia de transporte que ao longo do tempo modificaria radicalmente a configuração urbana, tanto em termos da circulação das coisas e dos corpos na metrópole como no que diz respeito à relação dos indivíduos com o trabalho, com os divertimentos e, podemos dizer, com o próprio corpo.

Símbolo de modernização, o automóvel trouxe, com o seu uso crescente, algumas mudanças no cenário da cidade. Pensemos no exemplo do Parque do Anhangabaú. Fruto de um projeto urbanístico pensado no âmbito de um ideário moderno dos jardins públicos e fortemente influenciado por uma organização paisagística europeia, particularmente francesa e inglesa, o parque foi idealizado como um espaço considerável de sociabilidade ao ar livre já na década de 1910. Localizado em uma área central da cidade, sofreu significativo impacto decorrente da expansão viária dos anos de 1920, tendo seus amplos espaços verdes invadidos, em parte, pelo concreto destinado à criação de áreas de estacionamento para automóveis (RAGO, 2004). O concreto, assim, trouxe perdas para a população local privando-a de um espaço verde destinado outrora à sua sociabilidade.

Havia ainda outros fatores que limitavam o acesso a tais ambientes, tal qual a existência de parques com entrada restrita, em mãos da iniciativa privada, como foi o caso do Jabaquara durante os anos de 1920. Este parque, localizado a cerca de dez quilômetros do centro de São Paulo, possuía abundância de diferentes árvores, incluídas aquelas frutíferas, como jabuticabeiras, laranjeiras, cerejeiras e mexeriqueiras, e era descrito, já na década de 1910, como um imenso bosque. “Local lindíssimo, quando um dia for reaberto ao público, será certamente o ponto mais procurado pelo povo, que ali terá um bello recreio e um aprazível repouso” (EXCURSÃO…, 1924, p. 3).

A Companhia Predial, empresa responsável pela administração do parque, exaltava, através da figura de seu diretor Dr. Lauro Cortines Laxo, o sucesso na preservação das matas do Jabaquara. O discurso de teor conservacionista fora proferido durante excursão ao local promovida com a presença do vice-prefeito, de membros da câmara municipal e representantes de vários veículos da imprensa. Após o passeio, foi oferecido um refinado almoço aos convidados, com variada carta de vinhos. Uma orquestra musicou o encontro, animando os presentes (Ibid.).

A preocupação com a reabertura do Jabaquara manifestada na reportagem reflete um tema constante em textos do período: a evocação dos espaços verdes, notadamente dos bosques, enquanto projeto de cidade. Em 1924, O Estado de S. Paulo publicava uma defesa veemente da necessidade de se construir um jardim zoológico no município que fosse um verdadeiro bosque, diferente dos parques com muito gramado e poucas árvores.

E dizemos que seria, em boa parte, um grande bosque, porque, sem este elemento, não se deve fundar um jardim zoológico. Ora, já estaria ahi um lucro consideravel para a população, sobretudo porque lhe foram fechados recentemente o Jabaquara e o Bosque da Saúde, as duas últimas reservas de matas que ainda existiam na cidade, um e outro em vias de se dividirem em lotes para construcções. (JARDIM…, 1924, p. 5)

Outra manifestação muito expressiva dessa preocupação na imprensa pode ser vista em reportagem de grande porte, ocupando duas páginas do Correio Paulistano, intitulada “As cabeceiras do Ypiranga” (1928, p. 7). O texto descreve detalhadamente projeto elaborado pelo escritório do engenheiro Mário Whately para a estruturação do Parque do Ipiranga, localizado a cerca de cinco quilômetros do centro da cidade. Embora não realizado em sua totalidade, tal projeto previa a instalação de uma grande estrutura para divertimentos, valorizada discursivamente pela proximidade com a natureza: quadras de tênis e de bocha, piscinas cobertas e descobertas, recinto para ginástica ao ar livre, parque infantil, campos de polo e de futebol, pérgolas e terraços para descanso e refeições, entre outros. Havia também a proposta de empreendimentos mais audaciosos no Ipiranga, como a instalação de um carrossel, uma roda-gigante e uma montanha-russa, tomando o cuidado de posicioná-los de modo a não ameaçar ou encobrir as matas. Queria-se, portanto, a coexistência entre dois ideais de parque aparentemente antagônicos: “o do parque puramente recreativo, pittoresco, calmo e artistico, e o do parque de diversões, á ConeyIsland” (p. 8).

Essa dualidade entre modelos supostamente diferentes de relação com o espaço urbano − pela máquina e pela mata, poderíamos dizer − em regime de existência mútua reflete, de certa forma, as tensões da própria modernidade. A representação ideal da urbe moderna encontra-se, notadamente naquele início de século, na confluência entre, por um lado, a mecanização e industrialização dadas pelo progresso científico e, por outro, a fabricação ou imaginação de uma natureza revisitada, controlada. Natureza que, diferente daquela do mundo rural, é profundamente urbana, expressa nos jardins e parques planejados, nos rios cujos usos passam a ser outros além daqueles do trabalho, do transporte e da contemplação, transformando-se, também, em lugar de práticas esportivas; nos corpos expostos ao sol não mais pela necessidade do trabalho, mas sim para o embelezamento e a cura.

É desse modo que o automóvel e o tráfego, os mesmos que solaparam o Anhangabaú, são também os que permitiram o acesso e o conforto aos divertimentos nos parques e recantos de um município territorialmente extenso. O projeto para o Ipiranga dava ênfase à necessidade das vias de acesso e da criação de linhas de transporte público que ligassem o parque ao centro e a outros bairros. Tratava-se de projeto moderno em que se previa a construção de uma estrutura viária interna ao parque, bem como o posicionamento estratégico de locais que protegiam os visitantes das intempéries na natureza permitindo, ainda, tanto a espera de ônibus especiais para circular dentro do parque, ou, de outros que levassem de volta para casa.

Na descrição do parque Jabaquara feita pela imprensa em outra reportagem, destacava-se elementos semelhantes:

Realmente, quem penetra naqueles aspectos bizarros da matta virgem, com as facilidades de magnificas estradas internas para automoveis, sente ali todo o esplendor da natureza com as suas encantadoras surprezas de aspectos e panoramas. O Jabaquara, situado quasi no centro da cidade, porque em poucos minutos de bondes electricos se pódeattingil-o, fica ao termo de uma bella avenida que de futuro será o local preferido pelos corsos elegantes. (EXCURSÃO…, 1924, p. 3)

Se a mata virgem revisitada, esse território dos divertimentos essencialmente urbanos, repleta de suas facilidades e estradas internas ligava-se valorativamente ao automóvel e aos novos modelos de deslocamentos da cidade moderna, processo contrário também parecia ocorrer. O carro passava a ser intimamente ligado à possibilidade de divertir-se ao ar livre facilitando o trajeto, ou mesmo era visto como um divertimento próprio, ou seja, por meio de passeios motorizados pelas áreas de natureza exuberante. A publicidade do automóvel Ford parece reforçar essa hipótese:

FIGURA 1 À direita, um grupo de pessoas faz um piquenique em área verde, ao lado do veículo estacionado. (FORD, 1925, p. 1) 

Na mesma tônica da relação com a saúde, o Correio Paulistano tratava, em 1928, das influências do automóvel sobre a população urbana, reproduzindo as colocações de H. Clifford Brokaw, um conselheiro técnico norte-americano da Associação Cristã de Moços (A INFLUENCIA…, 1928, p. 2). Dizia ele que milhares de pessoas nos EUA, “sem o vehiculo do progresso nunca teriam oportunidade de passar algumas horas da semana ao ar livre”, onde há oxigênio puro e os melhores espaços para o exercício dos músculos. Era também do maior interesse dos restaurantes que se propagasse o uso do carro e o sport do automobilismo entre as classes populares, visto que

O aumento da procura de comestíveis é uma das consequencias do gosto e da pratica das excursões e verifica-se mais facilmente nos períodos de férias, durante os quaes milhões de pessoas acampam nos parques nacionais, cujas communicações com as grandes cidades se fazem quasi exclusivamente por meio do automovel. (Ibid.)

Por fim, seria beneficiada também a indústria têxtil, com a venda de roupas confortáveis, mais adequadas aos passeios e excursões de carro. Tratava-se de uma representação de educação do corpo na qual o indivíduo, em sua relação com o automóvel, desloca-se, alimenta-se com mais vigor, veste-se com mais desenvoltura e conforto e, como afirma o discurso da coluna, torna-se mais apto a “tomar os melhores remedios que se conhecem – banhos de sol, de ar puro, paisagens encantadoras – para revigorar-lhes o corpo e deseletrizar-lhes o systema nervoso” (Ibid.).

Os divertimentos ao ar livre e as interpretações de parte do pensamento médico higienista sobre eles, eram, portanto, fortes elementos publicitários. Representavam um modelo de educação que encontrava espaço na imprensa paulistana, ressoando em múltiplos discursos.

Para além da venda de automóveis, o mercado imobiliário era outro bom exemplo dessa vinculação entre publicidade e divertimentos ao ar livre. Os anúncios dos lotes da Villa Queiroz descreviam os benefícios de sua localidade: um grande lago para natação e canoagem, um bosque de mata virgem com espaço para piqueniques, campo para futebol e tênis, avenidas arborizadas perfeitas para passeios e, é claro, uma bela estrada para automóveis (VILLA…, 1925, p. 16). A Companhia City, em semelhante estratégia, anunciava seus terrenos do bairro modelo Jardim América, oferecendo aos compradores uma “vida de campo”, garantida pelos cinco alqueires de parques internos, espaços livres e com ar puro para a “formação sadia da nova geração paulistana” (VIDA…, 1929, p. 7).

Por fim, na impossibilidade de adquirir um Ford ou uma bela casa em um loteamento modelo e, portanto, de ter mais acesso a uma boa vida ao ar livre, o paulistano poderia optar por uma saída indireta, por meio de tônicos e medicamentos. As Pílulas de Foster para os rins, por exemplo, eram representadas pela publicidade na categoria de “bons costumes”, juntamente com o bom sono e os exercícios ao ar livre (OS BONS…, 1922, p. 8). Os reclames do fortificante O Proton iam pelo mesmo caminho, ora propondo o produto como um complemento às práticas ao ar livre, ora levando o discurso ao seu limite ao propor o tônico como um substitutivo completo dessas práticas, que produziria “os mesmos resultados favoráveis duma cura ao ar livre” (O PROTON, 1927, p. 11).

Precisamos de dois meses de férias.

Quantas vezes se ouve pronunciar esta phrase em tantos lares onde as exigências da vida não permittem o repouso e o exercicio ao ar livre. E contudo é preciso fortificar o sangue depauperado, purificar os orgams, renovar vossa vitalidade emfraquecida pela surmenage e pela fadiga. Um maravilhoso remédio substituirá economicamente para vossa saude esse repouso impossível. (Ibid.)

As peças de publicidade nos jornais revelam, de certa forma, quais eram os significados atribuídos às diferentes atividades feitas pelos paulistanos ao ar livre. Evidenciam, enquanto representações e no sentido que até aqui apresentamos, a íntima relação estabelecida entre os usos do corpo em contato com os elementos da natureza e algumas concepções higiênicas do período, que viam na vida ao ar livre a chave para a educação de corpos fortes e saudáveis, adequados aos ideais modernos.

Os encontros em áreas verdes, dos piqueniques aos festivais esportivos, eram lidos pelo imaginário da imprensa e do consumo como manifestações da modernidade desejada, instrumentos de cura e fortalecimento. O ar, as águas e o sol cambiavam de sentidos, tornando-se elementos higiênicos e belos. Entre práticas e representações, era preciso cada vez mais expor o corpo, expor a pele.

“ONDE NÃO ENTRA O SOL, ENTRA O MÉDICO”: AS REPRESENTAÇÕES E IMAGENS DOS BANHOS DE SOL

Amigo do tugurio do pobre e do palacio do rico; que não foge da miseria e não corteja a opulencia, sendo egual para todos a sua luz e o seu calor; que não escolhe côr e nem classe social, o sol é uma das mais delicadas maravilhas, sahidas das mãos do Creador de todas as cousas, das mãos puríssimas de Deus. (MELLO, 1929, p. 4)

Em coluna instrutiva no Correio Paulistano, o médico Amphilophio Mello diz do sol, “aquele nosso bom amigo” e “deus da salubridade mundial”, que o astro, pelos seus raios, seria capaz de curar tuberculose, adenites, lúpus, úlceras, reumatismo e paralisias, entre outros (Ibid.). Seu texto vem ao encontro de uma profusão de publicações que exaltam os benefícios médicos e higiênicos dos banhos de sol, prática acessível e que só necessitava do descobrimento da pele ao ar livre para cumprir o efeito que prometia.

Diferentemente do corpo do Brasil colonial, pouco autônomo e pertencente a um mundo essencialmente agrário, que precisava se cobrir e se resguardar para evitar os desequilíbrios trazidos pelos miasmas, odores e excessos climáticos (SANT’ANNA, 2011), o corpo moderno e idealizado da urbe tendia ao movimento contrário. Tratava-se de um corpo que encontra espaços e momentos de exposição, despindo-se das coberturas e promovendo a própria força e vigor através do contato com os elementos da natureza. Distingue-se do corpo do mundo rural, mas também do corpo fustigado pelo desenvolvimento industrial, pelas epidemias, pela fuligem; torna-se capaz de fabricar a própria saúde por meio da higiene, da ginástica, dos esportes, dos divertimentos ao ar livre e das práticas de cura como os banhos de sol.

Como abordamos anteriormente, as diferentes práticas na natureza eram frequentemente utilizadas como elementos de atração nas publicidades. No que diz respeito ao potencial de cura da vida ao ar livre, instituições como os sanatórios destacavam-se no oferecimento de instalações propícias às boas práticas de higiene, tais quais os banhos de águas terapêuticas e de luz do sol. O Sanatório Mandaqui, localizado nas montanhas da Cantareira, oferecia “tratamento individual de primeira ordem” por meio de curas dietéticas, massagens, ginástica, banhos de ar livre e de sol. Rodeado de jardins e bosques, possuía tanques de natação e recomendava seus serviços para a cura de anemias, moléstias digestivas, nervosas e do metabolismo. Todavia, é interessante relembrar que o referido estabelecimento possuía importantes restrições a determinadas patologias, conforme podemos ler no extrato que segue: “Tuberculose, molestias contagiosas e alienados não se acceitam” (SANATORIO…, 1927, p. 1).

Remédio para muitos males, o banho de sol era sistematizado de acordo com preceitos científicos do período e ganhava espaços de divulgação nas colunas de apologia à helioterapia. No Estado de S. Paulo, o colunista Octavio Gonzaga expunha detalhadamente os meandros da ciência dos banhos de sol, cujos efeitos variavam de acordo com o horário do dia e com o tempo de exposição (GONZAGA, 1926, p. 3).

O contato com a luz solar também variava em seus resultados conforme o local da terapia, quer fosse na montanha ou à beira-mar. Era uma terapêutica que necessitava de dedicação, paciência e supervisão, mas que, ao mesmo tempo, tinha seus princípios e procedimentos divulgados em boletins médicos, revistas cientificas e mundanas tanto quanto em jornais, o que sugere uma preocupação – talvez veladamente publicitária – em promover a adesão à prática. Tanto Octavio Gonzaga quanto Amphilophio Mello escrevem, detalhadamente, a progressão indicada para o tratamento preventivo e curativo via banhos de sol, delimitando as áreas do corpo a serem expostas a cada dia e por quantos minutos.

FIGURA 2 Prescrição de helioterapia. (MELLO, 1929, p. 4) 

A representação dos banhos de sol enquanto prática higiênica recomendável veio acompanhada do surgimento de estabelecimentos que os ofereciam, dentre outras atividades, de maneira especializada. O Instituto Helio-hydrotherapico Itororó, um “estabelecimento que honra o nosso progresso”, nos termos do Correio Paulistano, era anunciado, em época de sua inauguração, como um supridor de lacunas da metrópole. Plenamente banhado de sol, comportaria “além de banhos de sol, de luz, de vapor comuns, sulphurosos e perfumados, todos os ramos de sports” (INSTITUTO…, 1929, p. 6). Ali haveria também aparelhos mecânicos para ginástica e salas próprias para a prática de esgrima. Adicionalmente, salão de danças e jardins para as crianças.

Somando-se à ideia de saúde, representavam-se ainda os banhos de sol como uma atividade de prestígio, típica de figuras de renome dos altos círculos sociais nos Estados Unidos e em países europeus. Era, portanto, elemento de moda, marcadamente belo. Indivíduos como o escritor George Bernard Shaw, o milionário John D. Rockefeller e o então governador de Nova York, Franklin D. Roosevelt, são elencados em destaque como adeptos da prática, inspirados pelas novas tendências higienistas. Embora a ênfase nos benefícios terapêuticos permanecesse em evidência, concomitantemente a ela, havia um discurso estritamente estético envolvendo a reformulação de representações sobre a beleza, especialmente a feminina.

Deixar que os raios solares tostem a epiderme é “chic”. Ha mesmo nos circulos elegantes da America do Norte e da Europa, principalmente entre o elemento feminino, a preocupação de amorenar a pelle por meio de banhos de sol, chegando a phantasia de algumas jovens a ponto de fazerem desenhos nas pernas e nos braços, verdadeiras tatuagens, applicando silhuetas de papel sobre a pelle exposta ao sol… (A MODA…, 1929, p. 1)

A pele humana, é preciso lembrar, carrega consigo ao longo da história um conteúdo simbólico. Conforme escreveu Carmen Lucia Soares (2015) a pele é um

“[…] Objeto biológico administrado, [que] revela, mas também oculta aspectos múltiplos da vida individual e social; de seu estado dependem o bem estar físico e, ao mesmo tempo, a relação que se estabelece com o outro. Modificável e sensível, ela pode ser lida como um marcador social inquestionável, definitivamente, um invólucro de vida.[…]”(p.10).

Sua cor, inata ou modificada, bem como as diferentes intervenções que são operadas sobre sua superfície, marcam distinções culturais, sociais e delimitam identidades (ANDRIEU, 2016). Como destacou Denise Bernuzzi de Sant’Anna (2014), a ideia do bronzeamento no Brasil sofre tensões específicas, relacionadas com os debates raciais presentes na cultura nacional do início do século XX. Nas décadas de 1920 e 1930, conviviam simultaneamente, no imaginário das elites, as peles bronzeadas à beira-mar e as peles embranquecidas, predominantes nas propagandas de cosméticos nos jornais e revistas.

De qualquer modo, a despeito dessas tensões relativas ao escurecimento da pele, a prática de tomar banhos de sol em nome da saúde e do prestígio parecia não possuir muitos atritos quando olhamos as representações da imprensa paulistana em nosso estudo. Entre 1928 e 1929, há três textos particularmente interessantes, sem autoria e publicados em primeira página no Correio Paulistano, que acompanham fotografias de dimensões privilegiadas dos ilustres adeptos do banho de sol. São excertos sobre os quais recaem também nossas suspeitas de se tratarem, talvez, de publicidades veladas, especialmente ao tomarmos em conta que foram publicadas no mesmo período da inauguração do Instituto Helio-hydrotherapico Itororó.

FIGURA 3 Word Leigh, John D. Rockefeller e George Bernard Shaw. (A MODA…, 1929, p. 1) 

FIGURA 4 Franklin D. Roosevelt. (O NOVO…, 1929, p. 1) 

Se George Bernard Shaw, “fervoroso adepto da vida na natureza”, cujo “repousar é viver em contato permanente com a natureza, praticando sports juvenis, fazendo exercícios natatorios e tomando banhos de sol” (UMA PAGINA…, 1928, p. 1), podia, quase desnudo, ocupar a primeira página de um jornal de grande circulação, as circunstâncias nos levam a crer que estavam em jogo ali novas representações e sensibilidades sobre a pele e suas partes descobertas. No contexto dos turbulentos anos 1920, com o efervescer urbano de valores culturais e concepções intelectuais e artísticas, há a adoção de novas práticas por parcelas da população e o corpo, mais exposto, com a pele à mostra, torna-se não apenas tolerado, mas legitimado e estimulado por discursos pedagógicos, médicos, do mercado e da moda.

Como já abordado por Carmen Lucia Soares (2011), as roupas, no contexto desses discursos, sofreram importantes modificações no período, tornando-se mais leves, favorecendo o movimentar-se e expondo mais a pele à ação dos raios de sol e do ar fresco. Ganha expressão um estilo esportivo que é, também, estilo de vida, na qual os imaginários da pele bronzeada, do vigor atlético e do cidadão urbano higienizado concorrem para um processual desnudamento do corpo. Algumas fronteiras do pudor, portanto, pareciam ter sido esticadas, ainda que encontrassem resistências. Em texto opinativo, uma ilustre3 colunista do Correio Paulistanoabria com a frase: “A polícia não é cultuadora dos banhos de sol…” (CHRYSANTHÉME, 1927, p. 3). A publicação faz ácida crítica ao papel moralista das forças policiais nos litorais, relatando situações de repressão às roupas de banho. Descreve a autora o prejuízo da ação:

Em revistas scientificas, em obras pesadas de conselhos, lêmos, todos os dias, que a humanidade vive pouco porque se habituou a cobrir demasiadamente a pelle que precisa do ar, de sol e de frescura para se revigorar e distillar os venenos que encerra. (Ibid.)

Não podemos afirmar com absoluta certeza quais eram as motivações dos indivíduos que se banhavam de sol, fosse à beira-mar, na montanha ou em um instituto de helioterapia. Nem são essas nossas pretensões. O que nossas fontes indicam é que no decorrer da década de 1920, notadamente em seus últimos anos, as representações e significados sobre os banhos de sol começam a ganhar cada vez mais espaço na imprensa e no imaginário de ao menos uma parcela da população. Assim entendemos, no sentido teórico amplo abordado tanto por Chartier (2002) quanto De Certeau (2014), que as representações e as práticas, em sua multiplicidade, estão sempre em situação de diálogo e determinando-se mutuamente.

A imagem dos banhos de sol como prática de saúde receitada pelos médicos, benéfica e higiênica, estava mais ou menos consolidada em países europeus e EUA, bem como no ideário de parte das elites. Os jornais abordavam essa prática de muitas maneiras, inclusive, em entrelinhas inesperadas como, por exemplo, na coluna intitulada “Banhos de sol… Um doente original…” (1929, p. 15), em que se descrevem os benefícios do banho de sol segundo os cânones da higiene para, em seguida, tratar do que se considerou como um atentado contra a moral.

O indivíduo de nome Waldemar Alves da Silva, cuja photographia publicamos, de 40 annos de edade, residente em Carlos de Campos, é um fervoroso adepto da prodigiosa medicina dos raios…

Waldemar, porém, não gosta dos raios de sol. O malandro prefere esses raios estonteantes emanados dos olhos femininos…

Não pode ver u’a mulher. Quando divisa ao longe uma filha de Eva, toma attitudesimmoraes, inconvenientes e insolentes, e vai postar-se á estrada, aguardando a passagem da encantadora representante do bello sexo… (Ibid.)

O homem, considerado “doente, moral e, talvez, physicamente” (Ibid.), foi preso. Ele representava, nesse sentido, o exato oposto dos adeptos da terapêutica higiênica dos banhos de sol. A nudez de Waldemar nada tinha de semelhante com os corpos higienizados pela exposição regrada ao sol e pelas práticas corporais e educativas ao ar livre.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O olhar para os grandes jornais paulistanos dos anos 1920 evidenciou que o ideário de uma natureza moderna, fabricada pela nova ordem urbana, estava fortemente presente em diversos campos e assuntos, não se restringindo aos saberes oficiais. Embora houvesse uma profusão de textos de especialistas (da medicina, da pedagogia, do urbanismo) que exaltavam as virtudes cientificamente comprovadas do contato com o ar livre e os demais elementos da natureza, havia também um conjunto heterogêneo de publicidades (de automóveis, de tônicos, de imóveis) que fazia uso desse imaginário, buscando acessar dimensões da sensibilidade paulistana já suficientemente consolidadas a ponto, podemos inferir, de produzir desejos e demandas de consumo.

Práticas prescritas pelo conhecimento médico-higienista, por exemplo, o banho de sol, eram retratadas também como elementos de beleza e prestígio, hábitos modernos e pertencentes ao mundo da moda. A natureza, portanto, não era território apenas da cura, da educação e, mais especificamente, de uma Educação Física escolar realizada ao ar livre, mas também da beleza, da fruição e dos divertimentos. Divertimentos estes que, amplamente oferecidos por diversas instituições (associações profissionais, clubes, empresas, escolas, sindicatos) ou advindos da congregação espontânea de diferentes grupos, ocupavam os espaços verdes da cidade, colocando seus habitantes em circulação e produzindo novos tempos no cotidiano urbano recém-industrializado.

Entendemos assim uma educação do corpo que não se constitui apenas através da institucionalidade da ciência, dos saberes e práticas escolares, das políticas públicas, da força quase absoluta e quase sempre evocada de um pensamento médico higienista. Essa educação do corpo configurava-se, também em apropriações diversificadas por parte dos sujeitos históricos, isto é, dos indivíduos comuns que nadavam nos rios, faziam piqueniques nos parques, deslocavam-se quilômetros com o objetivo de banhar-se de sol, festejar ao ar livre sob o som do jazzou praticar esportes. De modo mais ou menos sistematizado, com um diálogo mais ou menos intenso com os saberes oficiais, parte considerável da população paulistana parece ter apreendido o ideário de natureza e da vida ao ar livre como referenciais para sua vida cotidiana, de tal maneira que a imprensa e a publicidade passaram a tê-lo como pauta.

A circulação de novas representações e práticas junto à natureza nos anos 1920 ajudou a definir, dessa forma, não só a história das mudanças urbanísticas da cidade de São Paulo com suas novas arquiteturas, espaços de divertimento e áreas verdes delimitadas e projetadas para usos específicos. Definiu, também, a história dos desejos, prazeres, emoções, percepções, enfim, das sensibilidades e liberdades forjadas por uma educação do corpo paulistano urbano e moderno; simultaneamente submetida aos poderes institucionais e à fruição de apropriações originais, ingênuas e mais livres, daquele contato recomendado com o ar fresco, as águas e os raios solares, uma forma de viver característica de uma nova ordem urbana que se fortaleceria ainda mais nas próximas década

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1Neste artigo, fazemos uso da palavra divertimento no sentido dado pelas fontes utilizadas. Assim, esta palavra refere-se a uma atividade que afasta, desvia os seres humanos de suas preocupações ou problemas essenciais que os afligem. Trata-se, portanto, de uma referência ampla ao que distrai, entretém, diverte, recreia, alegra, faz rir e gera prazer.

2Em Cidade das Águas, Denise Bernuzzi de Sant’Anna (2007) produziu uma detalhada investigação sobre as águas de São Paulo, com seus rios, córregos, chafarizes e bicas, e toda a vida social que as rodeavam durante quase todo o século XIX.

3A cronista e escritora Chrysanthème, pseudônimo de Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos, foi uma importante autora do início do século XX e teve sua obra extensamente analisada na tese de doutorado de Pinto (2006).

Recebido: 28 de Março de 2018; Aceito: 13 de Agosto de 2018

Contato: Carmen Lucia Soares, Rua Dr. Sampaio Ferraz, 151, apto. 124, Bairro Cambuí, Campinas|SP|Brasil, CEP 13.024-903

Doutora em Educação e Livre Docente pela UNICAMP. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNICAMP, membro do Grupo de Pesquisa FOCUS e pesquisadora do CNPq. E-mail: <carmenls@unicamp.br>.

Licenciado em Ciências Sociais pela UNICAMP e mestrando em Educação Física pela mesma instituição. Membro do grupo FOCUS e Bolsista do CNPq. E-mail: <samuelrs.unicamp@gmail.com>.

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