ISSN 1982-6621 On-line | ISSN 0102-4698 Impresso (até 2015)

GRAMSCI, AS REVISTAS, O INTELECTUAL E A EDUCAÇÃO

Edição Atual

GRAMSCI, AS REVISTAS, O INTELECTUAL E A EDUCAÇÃO


Egberto Pereira dos Reis
Centro Universitário da Fundação Educacional, Guaxupé, MG, Brasil
Fundação Universitária Vida Cristã, Mococa, SP, Brasil
José Carlos Rothen
Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil


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RESUMO:

Neste artigo, abordamos a forma como Gramsci compreendeu o importante papel dos periódicos, principalmente, as revistas como meio difusor de uma nova concepção de mundo na vida do operariado e do povo em geral. Para que os periódicos atinjam seus objetivos, é necessário que se estabeleça o princípio educativo, em que intelectuais orgânicos e subalternos da sociedade estabelecem a troca de saberes. Assim, constatamos que o intercâmbio educacional, dá-se dentro das revistas, como ocorreu com os periódicos L’Ordine Nuovo e Il Grido. Desse modo, segundo Gramsci, os periódicos foram decisivos para que o operariado de seu tempo pudesse compreender a própria realidade e os mecanismos de exploração da classe dominante. Desta forma, se estabelece a chamada guerra de posição. Em outras palavras, as batalhas que são travadas nas revistas e na sociedade civil em busca da hegemonia e, consequentemente, da reforma intelectual e moral.

Palavras-chave: Gramsci; Princípio Educativo; Guerra de Posição; Revistas



1. INTRODUÇÃO

Este artigo visa analisar como Gramsci 1trabalhou a relação intelectual entre revistas e educação. De forma mais precisa, objetiva discutir em que medida Gramsci evidenciou o papel dos periódicos como “instrumentos” de atuação dos intelectuais orgânicos, na busca da reforma intelectual e moral, mediante o princípio educativo.

Para este propósito, o presente trabalho pauta-se por uma pesquisa metodológica bibliográfica. Esta é de relevância, conforme pontua Lakatos (1991, p. 151), “[…] a pesquisa bibliográfica é um apanhado geral sobre os principais trabalhos já realizados, revestidos de importância, por serem capazes de fornecer dados atuais e relevantes, relacionados com o tema”.

Ao estudarmos Antonio Gramsci, percebemos que a elaboração dos periódicos leva a vários desafios os quais não são observados pelo grande público consumidor. Para o pensador sardo,2 as revistas possuem um papel preponderante na construção de uma nova concepção de mundo, pois elas podem trazer em suas páginas elementos da reforma intelectual e moral. Gramsci esteve empenhado com seus companheiros para que a revista pudesse ser um órgão difusor e formador da consciência da própria realidade do proletariado.

Assim, visualizamos, nos Cadernos do Cárcere, como a publicação contínua de uma revista, pode oferecer um debate duradouro, como foi o caso da revista L’Ordine Nuovo 3 , nos tempos de militância de Gramsci. A revista publicada sob a direção de Gramsci demonstrou o ideário de um grupo de intelectuais que pensam e trabalham pela hegemonia junto à sociedade civil.

Todo o processo de elaboração do periódico, quando organizado pelos diretores e redatores, leva à intencionalidade de um público específico, para a formulação e manutenção cultural.

Além da qualidade dos materiais produzidos, com a finalidade de atrair o leitor, leva-se em conta, principalmente, a orientação intelectual do periódico, que identifica o grupo na construção do edifício cultural. Evidentemente, nem todos periódicos têm a função de construir um ideário, no entanto, alguns possuem esta característica, de identificação intelectual do grupo, que se torna evidente, principalmente, quando estudamos o gênero editorial, pois ele traz o ponto de vista defendido pelo grupo. Assim, compreendemos que a Revista L’Ordine Nuovo tornou-se um centro difusor de ideias, de uma nova concepção de cultura, até mesmo, a proposta de reforma moral e intelectual.

Este centro difusor torna-se elemento essencial para o que Gramsci denomina de guerras de posição, os quais se tratam das “batalhas” travadas dentro do periódico, quais estratégias utilizadas para levar, com afinco, um projeto intelectual e moral. A utilização do conceito de guerra de posição torna-se necessário para compreender a busca pela hegemonia diante do Estado. A guerra de posição trata-se das disputas por hegemonia, com relação aos intelectuais da revista, em um enfrentamento com a sociedade civil e com a própria estrutura estatal.

Visualizamos como os intelectuais possuem papel importante, principalmente, quando estes são intelectuais orgânicos, que atuam junto à sociedade, com os subalternos. Na verdade, Gramsci entende como o educando educa o educador. Deste modo, quando os subalternos, com o seu bom senso, demonstram outra realidade da vida, a qual por vezes, é ofuscada por uma concepção intelectualizada da situação vigente. Cabe ao proletariado e ao intelectual orgânico estabelecer o intercâmbio de saberes, que, para Gramsci, trata-se do Princípio Educativo, capaz de criar uma nova concepção de mundo, libertadora e pronta para a revolução cultural.

2. GRAMSCI E AS REVISTAS

No estudo sobre revistas e toda a sua importância dentro do mundo intelectual, remetemo-nos, primeiramente, a Gramsci, quando este se refere, nos Cadernos do Cárcere, aos “Tipos de revistas” que ele estabelece como essenciais para a organização da cultura. Desta forma, as revistas servirão como aportes para a “atividade educativa” (DORE, 2007, p.97). Inicialmente, não é a escola que desempenhará esse papel; no entanto, posteriormente, Gramsci tratará do princípio educativo “sobre a importância da escola” (DORE, 2007, p.97). Gramsci entende por cultura “um modo de pensar a realidade concreta, de intervir em sua transformação” (COUTINHO, 1999, p. 24). De fato, a revista L’Ordine Nuovo tornar-se o centro difusor de ideias de um grupo de intelectuais que alternarão as “batalhas” na prática política e, ao mesmo tempo, “divulgarão as suas ações de forma sistematizada, o que se intencionava no fazer política” (COUTINHO, 1999, p. 29).

Além disso, para Gramsci (2011), a revista servirá como elemento fundamental para a elaboração e a criação da “concepção de mundo” que, ao mesmo tempo, está na “base das revistas” (GRAMSCI, 2011b, p. 205). Sobretudo, este papel será desempenhado pelo editorial. Ele teria como escopo buscar a “reforma intelectual e moral” nos diversos campos da sociedade, mas, especificamente, nas questões políticas e culturais (DORE, 2007, p.81).

De fato, Gramsci obteve a experiência com L’Ordine Nuovo, de um centro de difusão que se demonstrou eficaz na divulgação de uma nova cultura a fim de organizar a sociedade. O que Gramsci, de fato, desejava era uma nova civilização, na qual, as revistas são necessárias para “constituir um instrumento para reforçar as instituições culturais” (DORE, 2007, p. 81).

A elaboração nacional unitária de uma consciência coletiva homogênea requer múltiplas condições e iniciativas. A difusão, por um centro homogêneo, é a condição principal, mas não deve e não pode ser a única. Um erro muito difundido consiste em pensar que cada camada social elabora sua consciência e sua cultura do mesmo modo, com os mesmos modelos, isto é, com os mesmos métodos dos intelectuais profissionais (GRAMSCI, 2011b, p. 205).

Gramsci (1968) entendia a necessidade da organização da sociedade civil e isto se dá somente com o advento de uma nova cultura. A organização da cultura torna-se eixo fundamental para a chamada reforma intelectual e moral (DORE, 2007). Gramsci (1968) pensava em um centro homogêneo, propagador e difusor de nova cultura, vinculado à questão educativa, que requer estruturas. Assim, condições necessárias que evitem improvisações e amadorismos, e cujas diversas iniciativas possam conduzir àquilo que Gramsci (2011a) denominará como a busca de consenso.

Dando uma completa reviravolta na concepção de cultura como dimensão inteiramente subordinada à economia, dominante do movimento operário de sua época, ele entende que a fundação de um novo Estado depende de um processo muito mais amplo de criação de uma nova civilização. Por isso, considera imprescindível “organizar a cultura”, ampliando os meios para difundir novas concepções do mundo que permitissem às classes subalternas tomar “consciência de si”, dos seus próprios fins e fazer sua história (DORE, 2007, p. 80).

Segundo Gramsci (2011), as concepções novas de mundo só seriam possíveis com uma nova acepção de cultura, que deveria abranger, especialmente, as classes subalternas. E, com isso, oferecer elementos para que os camponeses e operários pudessem estruturar-se na “tomada de consciência” e na organização de um grupo, o qual, de fato, pudesse se identificar como tal para a prática política.

Gramsci entendia que o Jornalismo, ao qual ele dedicara várias páginas nos Cadernos do Cárcere, e teve uma atividade jornalística4 intensa, quando estava em liberdade, era associada intrinsecamente com a sua atividade política.

A partir desse momento, a ideia de uma estruturação de poder que partisse da célula da comissão interna da própria fábrica e que fosse ampliada pelas massas de operários cada vez mais conscientes do próprio papel, passou a ser a mola propulsora de L’Ordine Nuovo. Desta forma, o problema da ampliação das comissões internas “tornou-se o problema central, tornou-se a ideia do Ordine Nuovo (…) tornou-se para nós e para todos os que nos seguiam, o jornal dos conselhos de fábrica”5 (tradução nossa). A revista passou a atuar, portanto, em um campo bem diferente daquele que era comum às outras revistas que já tivemos ocasião de mencionar. Atuou bem próximo dos operários, bem mais que a Critica sociale, até então a revista do partido socialista (ARRIGONI, 1988, p. 74).

Segundo Peter Mayo (2007), a revista L’Ordine Nuovo desempenhou papel importante na formação e na educação dos adultos. Principalmente, quando se refere aos operários de Turim, uma classe subalterna que, mediante esse periódico, desenvolveu importantes ações reflexivas. Dentre elas, destacam-se: sustentação crítica e apropriação de elementos da cultura dominante, análise do ponto de vista do proletariado a respeito da sua própria situação cultural e representação de seus interesses. Ressalta-se também a capacidade “[…] na elaboração dos elementos mais emancipadores da cultura popular, na perspectiva da criação de uma nova cultura proletária”6 (MAYO, 2007, tradução nossa). De fato, a revista L’Ordine Nuovo ofereceu elementos que alimentaram a classe operária, criando uma perspectiva de conhecimento da própria realidade e, claro, elaborando uma nova concepção de mundo, sem dúvida, a partir de sua própria realidade.

Portanto, no próximo tópico, o texto ocupar-se-á da discussão do conceito de guerra de posição. Este foi fundamental para Gramsci entender como são travadas as estratégias na sociedade civil e na sociedade política na busca pela hegemonia.

3. GUERRAS DE POSIÇÃO

É nesse contexto que o conceito de guerra de posição emerge de modo a compreender a posição da revista L’Ordine Nuovo. Ela atuaria como fio condutor entre os intelectuais (redatores). Por essa razão, em conjunto com os operários na sociedade civil, tornar-se-ia fundamental para entender o processo revolucionário pensado por Gramsci.

Ocorre na arte política o que ocorre na arte militar: a guerra de movimento torna-se cada vez mais guerra de posição; e pode-se dizer que um Estado vence uma guerra quando a prepara de modo minucioso e técnico no tempo de paz. A estrutura maciça das democracias modernas, seja como organizações estatais, seja como conjunto de associações na vida civil, constitui para a arte política algo similar às “trincheiras” e às fortificações permanentes da frente de combate na guerra de posição: faz com que seja apenas “parcial” o elemento do movimento que antes constituía “toda” a guerra, etc. (GRAMSCI, 2011c, p. 24).

Na vida política, acontece a mesma coisa que sucede na área militar. A guerra de movimento vai tornando-se, cada vez mais, guerra de posição. Gramsci utiliza termos bélicos e os aplica à arte política.

A resistência passiva de Gandhi é uma guerra de posição, que em determinados momentos se transforma em guerra de movimento e, em outros, em guerra subterrânea: o boicote é guerra de posição, as greves são guerras de movimento, a preparação clandestina de armas e elementos combativos de assalto é guerra subterrânea (GRAMSCI, 2011c, p. 124).

Ao que tudo indica, a “guerra de movimento”, num contexto histórico-político, não chega a ser determinante, já que uma greve não indica uma revolução de caráter socialista e permanente, como a ditadura do proletariado, mas apenas mudanças que pudessem favorecê-lo dentro do Estado burguês. Já na “guerra de posição”, aparecem mudanças críticas, nova concepção de mundo, absorção cultural. Desta forma, os subalternos promovem mudanças estruturais, num sentido amplo que penetre no âmago de toda a sociedade, o que, de acordo com o pensador sardo (2011c), foi feito por Gandhi.

Para Gramsci, o espaço no qual pode ser contestada a hegemonia é o amplo território que o mantém (sustenta), isto é, a sociedade civil que é concebida como um lugar de luta. Ele argumentou que o Estado, como é de fato, sustentado pelas instituições da sociedade civil, não pode ser combatido frontalmente por aqueles que aspiram a transformá-lo, para desenvolver um novo sistema de relações sociais. Gramsci quer dizer que tipo de comparação como uma “guerra de manobra/frente”. Em sua visão grande parte do processo de transformação do Estado e seu aparato coercitivo devem preceder e não perseguir (acompanhar) a tomada do poder. As pessoas que trabalham para a transformação social devem se engajar em uma “guerra de posição”, um processo de organização social e influência cultural de amplo espectro dentro do qual é colocado precisamente a visão política de uma estratégia revolucionária, baseada na passagem da “guerra de manobra” e do ataque frontal à “guerra de posição” adequada às condições do Ocidente, onde o exercício da hegemonia é confiado à conquista de um consenso em todas as grandes articulações da sociedade civil7 (SCHETTINI, 2008, p. 05, tradução nossa).

Gramsci elabora uma distinção importante entre sociedade política e sociedade civil, já que esta última, como vimos acima, é o território propício no qual se busca a hegemonia e se trava a guerra de posição. A sociedade política caracteriza-se por todo aparato que dá legitimidade ao Estado, como a força coerciva e dominadora. Assim, em uma visão liberal, o Estado caracteriza-se pela “organização administrativa, jurídica e militar do aparelho fundamental, ou o Estado como ‘guarda-noturno’ e fiador de paz, segurança e ordem” (FONTANA, 2003, p.117).

Já a sociedade civil, a qual, para Gramsci, é o campo específico no qual se trava a guerra de posição, caracteriza-se pela busca do “consenso e da direção moral”; a sociedade política, para Gramsci (2011b), “está em oposição e contraste com a sociedade civil” (FONTANA, 2003, p.116). A “guerra de posição” constitui-se por conflitos ideológicos e culturais, numa alta complexidade que envolve vários organismos e grupos sociais. Gramsci, de forma genial, “amplia o conceito de Estado” (FONTANA, 2003, p.116), principalmente, quando cita a:

confusão entre sociedade civil e sociedade política, uma vez que se deve notar que na noção geral de Estado entram elementos que devem ser remetidos à noção de sociedade civil (no sentido, que seria possível dizer, de que estado = sociedade política + sociedade civil, isto é, hegemonia couraçada de coerção (GRAMSCI, 2011c, p. 244).

Quando, em determinado grupo ou partido, os subalternos, como o proletariado, que busca mudanças profundas no Estado burguês, estão à procura da hegemonia, devem fazer uso da “guerra de posição”, que é “um processo de organização social e de influência cultural de longo alcance”8 (MAYO, 2007, p. 54 – tradução nossa). É pela organização da junção de diversos grupos sociais, com vários segmentos da sociedade, que se cria o “bloco histórico” (MAYO, 2007). Neste sentido, o bloco histórico para Gramsci (2011b), “não é cimentado apenas pela convergência de interesses econômicos ou mesmo políticos, mas também por afinidades de natureza cultural” (COUTINHO, 1999, p.73).

Segundo Gramsci (2011c), não se deve usar a «guerra de manobra/frontal», (MAYO, 2007, p. 54), por esta parecer de grande eficácia, sobretudo, quando “aplicada à arte política” (GRAMSCI, 2011c, p. 71), podendo efetivar-se em dois momentos: no primeiro, “o elemento econômico imediato (crises etc.) é considerado como armadilha de campo” (GRAMSCI, 2011c, p. 71). Talvez este seja o mais importante, uma vez que a vida está, praticamente, em função do mercado. E, no segundo, “abrir a brecha na defesa inimiga” (GRAMSCI, 2011c, p. 71) com fatores ideológicos. Gramsci observa que a eficácia da “guerra de manobra” pode se desmantelar uma vez que:

[…] Estados mais avançados, onde a “sociedade civil” tornou-se uma estrutura muito complexa e resistente a “irrupções” catastróficas do elemento econômico imediato (crises, depressões etc.); as superestruturas da sociedade civil são como os sistemas das trincheiras na guerra moderna (GRAMSCI, 2011c, p. 73).

Fundamentado no argumento supracitado, Gramsci propõe “estudar com profundidade quais os elementos da sociedade civil que correspondem aos sistemas de defesa, na guerra de posição” (GRAMSCI, 2011c, p. 73).

Sob esta ótica, para estudar os elementos da sociedade civil e investigar as guerras de posição, no próximo tópico, analisaremos, o papel do intelectual na sociedade. E, concomitantemente, discutiremos a educação como instrumento de formação de uma nova concepção de mundo.

4. OS INTELECTUAIS E A QUESTÃO EDUCACIONAL

O tema da Educação foi, para Gramsci (2011c), um dos pontos centrais das suas preocupações intelectuais. Isto é tão nítido que o seu projeto político de transformação da sociedade passa, necessariamente pela educação, sobretudo, no tocante à formação dos adultos, quando ele se refere aos operários. Tanto Manacorda (2008) quanto Paolo Nosella (1992), estão de acordo que a revista Il Grido9 contribuiu, de forma expressiva, para a formação educacional do proletariado. No tocante à revista Il Grido, Manacorda (2008) afirma que:

os temas da política escolar e das orientações pedagógicas tornam-se mais frequentes. (Il Grido desenvolveu uma campanha sistemática de renovação cultural e ideológica do partido socialista), e as iniciativas concretas dentro do campo educacional sucedem-se ininterruptamente (MANACORDA, 2008, p. 30).

A revista Il Grido tornou-se, de fato, condição essencial para que o proletariado adquirisse cultura e, assim, pudesse ter acesso a uma forma educativa. Não sob a ótica positivista, mas no sentido de tornar-se tão eficaz, a ponto de constituir uma organização interna e libertar-se dos intelectuais tradicionais burgueses.

Segundo Paolo Nosella (1992, p. 27), o “[…] operariado nem sempre entendia que o aumento da produção e do emprego não é um valor absoluto. A produção é um meio e não um fim.” (NOSELLA, 1992, p. 27). Sob este prisma, é necessário haver um “trabalho formativo”, portanto, educacional. Este deve propiciar uma reflexão crítica aos operários, de modo a serem capazes de perceber que produzir armas e tratores não é a mesma coisa. Assim, devem “[…] participar não apenas da política reivindicativo-salarial e sim também dar a direção política produtiva nacional” (NOSELLA, 1992, p. 27-28). Neste contexto, a formação intelectual do operário é imprescindível para “[…] ultrapassar os limites do economicismo individual (egoísta-passional) para entrar, de forma amadurecida, no momento ético-político” (NOSELLA, 1992, p. 27-28).

É, sem dúvida, árduo o trabalho que deve ser feito com o proletariado, sobretudo, “pela heterogeneidade político-intelectual do operariado” (NOSELLA, 1992, p. 29). Contudo, ao se estabelecer uma educação recíproca entre intelectuais e operários, elevar-se-á, ainda mais, a cultura a uma revolução do proletariado. Gramsci, por fim, não admitia que a educação fosse de baixo nível, mantendo-se no senso comum. Gramsci entende que se deva partir desse senso comum, mas permanecer somente nesse nível significaria fazer o que a classe dominante sempre fez, infantilizar os operários numa conservadora educação.

Para superar ingenuidades e idealismos, Gramsci propõe o bom senso “como atitude de desprezo pelas obscuridades e artificiosidades de certas exposições científicas e filosóficas” (GRAMSCI, 2011a, p. 118). Assim, o bom senso desenvolvido pelo povo tornar-se-á o primeiro passo para uma nova concepção de mundo, buscando-se o progresso intelectual do povo.

A posição da filosofia da práxis é antitética a esta posição católica: a filosofia da práxis não busca manter os “simples” na sua filosofia primitiva do senso comum, mas busca, ao contrário, conduzi-los a uma concepção de vida superior. Se ela afirma a exigência do contato entre intelectuais e os simples não é para eliminar a atividade científica e para manter uma unidade no nível inferior das massas, mas justamente para forjar um bloco intelectual-moral que torne politicamente possível um progresso intelectual de massa e não apenas de pequenos grupos intelectuais (GRAMSCI, 2011a, p. 103).

O que se deve fazer é uma educação de alto nível, para que operários e intelectuais possam, numa caminhada gnosiológica conjunta, atingir profundo conhecimento da ideologia vigente a fim de transformar a sociedade. Ampliar, criar e mudar a concepção de mundo, de fato, tornou-se uma realidade nas páginas da revista L’Ordine Nuovo. A experiência vivida pelos operários turinenses foi descrita no periódico, assim como as ações a serem realizadas estiveram estruturadas de forma que os trabalhadores tivessem fundamentos sistematizados para possibilitar uma nova sociedade socialista, a da revolução do proletariado, como almejava Gramsci. A revista tornou-se uma extensão da própria fábrica. As lutas eram narradas e, ao mesmo tempo, as posições e determinações, descritas.

O Ordine Nuovo, o periódico do qual Gramsci, Umberto Terracini e Palmiro publicaram o primeiro número em 19 de Maio de 1919, foi concebido como uma revista de cultura socialista e, portanto, como uma importante fonte de educação de adultos. Constituí ao meio pelo qual foram analisadas as produções culturais desse período na ótica da classe “subalterna”, cujos interesses a revistas e propunha representar10 (MAYO, 2007, p. 61, tradução nossa).

A educação em Gramsci possui um longo alcance, ou seja, a sua concepção educacional vai além dos muros da escola, quando se concretiza, principalmente, com o operariado. O tema da educação foi recorrente não só nos Cadernos do Cárcere, como nas cartas dirigidas à sua esposa e também à cunhada.

Pode-se dizer, portanto, que a ideia de educar a partir da realidade viva do trabalhador e não de doutrinas frias e enciclopédicas; a ideia de educar para a liberdade concreta, historicamente determinada, universal e não para o autoritarismo exterior que emana da defesa da liberdade individualista e parcial, constituem a alma da concepção educativa em Gramsci. Esses princípios já foram expressos nas suas críticas à Universidade Popular de Turim e continuamente voltarão à tona até sua morte. Partir do terreno da experiência concreta do trabalho moderno é a marca do processo educativo historicista de Gramsci: à luz do problema produtivo atual, as informações dos eventos históricos passados (Luis Blanc, Eugênio Fornière, a Comuna de Paris, etc.) tomam sentido e vida (NOSELLA, 1992, p. 36).

De fato, Del Roio (2006) compartilha com Nosella (1992) que a educação do proletariado inicia-se na realidade da própria existência, na experiência vivida, e, desta forma, é que se pensa em um sentido educativo mais amplo, em que o educando educa o educador. A imprensa e, de um modo particular, a revista L’Ordine Nuovo assumem a função educativa. Neste sentido, “uma atividade de formação político-cultural” (MANACORDA, 2008, p. 134). A revista tornar-se um “instrumento de hegemonia cultural” (MANACORDA, 2008, p. 169).

No entanto, como é proposto e testemunhado na revista L’Ordine Nuovo, principalmente, em um artigo publicado em 14 de agosto de1920, quando o próprio Gramsci fala de um “golpe de redação” (Ordine Nuovo), constata-se que, até a citada data, a revista foi somente uma antologia, uma resenha de cultura abstrata e medíocre intelectualmente. Gramsci, juntamente com seus companheiros Terracini e Togliatti, cofundadores da revista L’Ordine Nuovo, promovem uma mudança radical nos destinos do periódico, sem a aceitação de Tasca. De acordo com Gramsci, Tasca queria somente lembrar o que fazia a classe operária, pobre e inculta.

O artigo que acabamos de cita foi publicado no n.7 da revista semanal Ordine Nuovo. Esse número registra o momento da grande virada teórica da revista no que diz respeito à relação política entre as Comissões Internas (e Conselhos) de Fábrica e os Sindicatos e o Partido (P.S.I.). Num texto de agosto de 1920, essa virada é lembrada por Gramsci: “Urdimos, eu e Tigliatti, um golpe de Estado redacional: o problema das Comissões Internas recebeu sua linha adequada explicitamente no n. 7 da revista. Algumas noites antes de escrever o artigo, tinha eu exposto ao companheiro Terracini as ideias centrais e Terracini concordou; o artigo com a colaboração de Togliatti foi publicado e aconteceu o que havíamos previsto: fomos, eu, Togliattí e Terracini, convidados para debater nos círculos educativos, nas assembleias de fábricas, nas comissões internas […]. O problema do desenvolvimento da comissão interna tornou-se o problema central, tornou-se a ideia de Ordine Nuovo, o problema fundamental da revolução operária, isto é, o problema da liberdade proletária (…). Os operários amaram Ordine Nuovo (isto podemos afirmá-lo com íntima satisfação); e por que os operários amaram Ordine Nuovo? Porque nos artigos do jornal reencontraram uma parte de si mesmo, a melhor parte de si mesmo; porque sentiam os artigos de Ordine Nuovo permeados por seu próprio espírito de busca interior! Como podemos nos tornar livres?” Como podemos nos tornar nós mesmos? Quem não concordou com essa nova linha teórica da revista e ficou fora a partir do n. 7, foi o companheiro Tasca que não colaborou de forma alguma com essa formação (NOSELLA, 2016, p. 72-73).

Com o “golpe”, a revista L’Ordine Nuovo adquire uma nova orientação. A noção de educação assemelha-se ao trabalho, isto é, estabelece uma relação profunda do trabalho com a escola. A concepção de Gramsci neste ligame entre fábrica e escola dar-se-á, sobretudo, porque “os operários italianos, pela primeira vez na história, encontraram, nos socialistas de L’Ordine Nuovo, a determinação de concretizar, de colocar em ato, o que se vinha há tempos afirmando teoricamente” (ARRIGONI, 1988, p. 74). Dessa maneira, a revista L’Ordine Nuovo aproxima-se, de forma atuante, do operariado e foi assim que, de dentro das fábricas, os operários conseguiram, de fato, fazer uma leitura da própria realidade.Em outras palavras, despertou-se neles o desejo de saber, com a sua própria concepção de mundo, visualizada a partir da revista L’Ordine Nuovo. (GRAMSCI, 1987).

O mesmo “Nova Ordem” constituía o instrumento mediante o qual foram analisadas as produções culturais daquele período do ponto de vista da classe “subalterna” e cujos interesses a Revistas e propunha a representar. Na realidade, através dos círculos, os conselhos de fábricas, da imprensa, Gramsci sustentava a relação entre intelectuais e operários, no qual o primeiro, com base na formação teórica, agiam comum a capacidade diretiva com relação ao segundo e, ao mesmo tempo, consentiam a este último uma certa capacidade diretiva, alegando uma conexão ativa de relações mútuas, onde cada professor é sempre estudante e cada estudante é professor 11(SCHETTINI, 2008, tradução nossa).

Na revista L’Ordine Nuovo, aparecem elementos claros de revolução. Primeiro, que se deve lutar contra a classe dominante, que impõe seu domínio educativo, fundamentado no idealismo. Segundo, que se deve lutar contra o sindicato e o partido que estão vinculados ao mundo burguês, por não serem capazes de “realizar essa educação para a emancipação, de organizar a autoeducação dos trabalhadores” (DEL ROIO, 2006, p. 313). Sem dúvida, a educação dos trabalhadores tornou-se tema recorrente na revista, uma educação que fosse para a liberdade. Porém, a amplitude educacional do L’Ordine Nuovo causa espanto, uma vez que se propõe, para além da tecnicidade, um conhecimento que seja cultural e humanista, a demonstração de que “os problemas econômicos e morais desencadeados pela guerra só podem encontrar solução definitiva com a solidariedade internacional dos trabalhadores” (NOSELLA, 1992, p. 39).

Existe, ainda, a preocupação com o fato de o operariado ser, de tal maneira, formado e educado, que possa ser capaz de gerir a própria fábrica, mediante, é claro, “uma organização hierárquico-cultural para que se forme uma grande escola nacional, pela qual os trabalhadores de todos os níveis possam ser alcançados” (NOSELLA, 1992, p. 39).

No entanto, não se tratava, para Gramsci, de fazer predominar o antigo grupo do L’Ordine Nuovo, no PCI, mas sim de construir um novo grupo dirigente, capaz de criar um “sistema educativo” novo e adequado às condições. Esse grupo deveria educar a si mesmo, na medida em que ele próprio se formava, superando o espírito de seita e, ao mesmo tempo, deveria ser capaz de assimilar a melhor expressão de cultura e ação política geradas no seio da própria classe trabalhadora. Além de se autoeducar, o educador deveria continuar sendo educado pelo educando. Assim, e somente assim, os riscos regressivos, do ponto de vista cultural e político, presentes nas diferentes posições de Bordiga e de Tasca, poderiam ser superados numa nova síntese teórica. (DEL ROIO, 2006, p. 313).

É nessa perspectiva que nasce um saber intercambiável, uma vez que Bordiga e Tasca percebiam um abismo entre as massas populares e os intelectuais, «e não percebiam como o educador pode e deve ser educado pelo educando» (DEL ROIO, 2006, p. 319). Desta forma, na próxima seção, abordaremos o papel do intelectual tradicional e do intelectual orgânico. Analisaremos qual a função deste último na sociedade e no mundo da educação intercambiável.

5. O PAPEL DO INTELECTUAL

Existe, de fato, a tentativa de desmistificar a figura do intelectual e de propor qual o seu verdadeiro e adequado papel na sociedade, analisando a questão proposta, à luz de Gramsci e, é claro, na revista L’Ordine Nuovo, o intelectual orgânico em detrimento ao intelectual tradicional. A concepção de Gramsci permitirá analisar o papel do intelectual tradicional, para pensarmos num intelectual orgânico, que desenvolva a construção da consciência crítica dentro de seu bloco cultural.

Quais são os limites “máximos” da acepção de “intelectual”? É possível encontrar um critério unitário para caracterizar igualmente todas as diversas e variadas atividades intelectuais e para distingui-las, ao mesmo tempo e de modo essencial, dos outros agrupamentos sociais? O erro metodológico mais difundido, ao que me parece, consiste em se ter buscado este critério de distinção no que é intrínseco às atividades intelectuais, ao invés de buscá-lo no conjunto do sistema de relações no qual estas atividades (e, portanto, os grupos que as personificam) se encontram, no conjunto geral das relações sociais (GRAMSCI, 1968, p. 6-7).

Gramsci procura demonstrar que os intelectuais devem ser vistos de acordo com suas relações sociais, e não de acordo com o que nos foi inculcado como intelectual profissional. Os intelectuais são formados, conforme os vínculos de grupos sociais que representam e que, de fato, são os mais importantes. Estes intelectuais “servem” aos grupos dominantes, por meio dos quais, ocorre assimilação da ideologia vigente. Desta forma, de acordo com o nível cultural de um grupo e de seu desenvolvimento, será o perfil do intelectual, não somente no aspecto quantitativo, mas também, e, especialmente, no caráter qualitativo.

Segundo Gramsci (2011b), os intelectuais tradicionais têm duas funções na sociedade burguesa: a primeira é estabelecer consenso por parte dos subalternos, como forma de submissão à classe dirigente; a segunda é assegurar a disciplina dos grupos que não se submetem, em momentos de crise, à “coerção estatal”.

Gramsci não só observa a vida intelectual, como também vivencia o que seja, realmente, um intelectual atuante. De fato, este intelectual orgânico, assim denominado por Gramsci (1968), atua de maneira criativa, como parte constitutiva da sociedade em que vive. O intelectual orgânico participa da sua realidade, plugado às vicissitudes da cultura, do trabalho e da política (SEMERARO, 2006).

O modo de ser do novo intelectual não pode mais consistir na eloquência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das paixões, mas numa inserção ativa na vida prática, como construtor, organizador, “persuasor permanente”, já que não apenas orador puro – mas superior ao espírito matemático abstrato; da técnica-trabalho, chega à técnica-ciência e à concepção humanista histórica, sem a qual permanece “especialista” e não se torna “dirigente” (especialista + político). (GRAMSCI, 2011b, p.53)

O intelectual não deve estar ligado às coisas separadas e distantes do mundo real, preso às abstrações que não acrescentam nem oferecem algo de concreto aos problemas e desafios sociais. Este ser “separado” vincula-se a um tradicionalismo intelectual que se porta de forma “superior”, com relação às classes subalternas.

Na realidade, Gramsci dá um salto na concepção de intelectual e valoriza o saber popular; propõe a organicidade na acepção do que seja o intelectual atual e atuante. Assim, quando Gramsci (1968) afirma que “todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer, então, mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função intelectual” (GRAMSCI, 1968, p. 36), por mais que alguém exerça um trabalho muscular, Gramsci salienta que este desenvolve um mínimo de raciocínio em seu ofício. O que se pode entender é que todos têm a ofertar uma contribuição no desenvolvimento da sociedade e do conhecimento e, quanto a isto, podemos entender que há o inevitável intercâmbio de saberes entre o povo, operariado e o intelectual.

É nesse contexto que aparece, com toda a clareza, a necessidade de se educar e de se preparar o educador das massas, o partido revolucionário. A fim de estruturar a frente única, o partido deveria subtrair a base de influência dos socialistas na classe operária, desorganizando essa agremiação, o que demandaria capacidade orgânica na fábrica e no sindicato, isto é, capacidade intelectual e organizativa. A visão mecânica e positivista da burguesia, que impregnava o operariado, deveria ser batida. Para isso, seria necessária uma massa crescente de intelectuais orgânicos da classe operária, que tivesse o mais estreito vínculo com o processo de trabalho, pois lhe caberia conduzir o necessário controle social da produção, fundamento do objetivo revolucionário (DEL ROIO, 2006, p. 326).

Outra questão é o que o intelectual tem a oferecer. Aqui se trabalha o que, tradicionalmente, concebemos por ensinar, mas, na verdade, o intelectual estabelece uma legitimação em prol do Estado e da burguesia. O intelectual deve superar a noção de que somente ele detém conteúdos a ensinar. De fato, Gramsci espera que o intelectual encontre-se participante na realidade concreta do povo e que não se deve reduzir apenas à oratória e às grandes elaborações de pensamentos, mas dirigir e organizar, junto ao povo, uma nova forma de sociedade civil. A contribuição do intelectual encontra-se também no plano moral, pois a reforma que se pensa na sociedade é intelectual e moral. Na sociedade civil (como a imprensa, a igreja, a escola, os sindicatos etc.), bem como no partido, deve-se pensar na liberdade e na consciência, principalmente, crítica, como formas de condutas práticas na realidade.

Os intelectuais orgânicos podem servir, se são homogêneos à classe/grupo para mediar a unidade ideológica e política da hegemonia existente. Por outro lado, se são orgânicos para o grupo ou classe subordinada que aspira ao poder, se envolvem na guerra de posição que lhe permite fazer as alianças necessárias para ter sucesso. Se são orgânicos a um grupo subalterno, faz parte da sua missão contribuir para uma “reforma intelectual e moral”, que Gramsci sentiu como necessário e urgente para estabelecer os fundamentos de uma sociedade mais justa12 (SCHETTINI, 2008, p. 09, tradução nossa).

Com acurada propriedade, Semeraro (2006) observa que “A interconexão do mundo do trabalho com o universo da ciência, com as humanidades e a visão política de conjunto formam, em Gramsci, o novo princípio educativo e a base formativa do novo intelectual orgânico” (SEMERARO, 2006, p. 378). Essa conexão levará a uma reforma intelectual e moral que Gramsci entende estar conectada com toda a vida da sociedade. Desta forma, qualquer programa de reforma econômica, político-social estará coligado à reforma intelectual e moral.

Com efeito, a revista L’Ordine Nuovo tornou-se o lugar privilegiado de intercâmbio de saberes, uma vez que concentrou esforços para educar os Conselhos de Fábricas, já que, com um movimento educacional e simultâneo, os intelectuais passaram a aprender com os operários. Gramsci entendia que a unidade feita pelos trabalhadores, à classe subalterna, ligada aos campesinos, tornar-se-ia o centro do processo revolucionário.

Para alcançar a hegemonia, é necessária a organização da classe que busca a liderança, e consequentemente se transforme na classe dirigente. Assim, visualizamos a importância do partido e do intelectual orgânico. Gramsci salienta o que é preciso para se ter um partido.

[…] para que um partido exista, é necessária a confluência de três elementos fundamentais (isto é, três grupos de elementos). 1) Um elemento difuso, de homens comuns, médios, cuja participação é dada pela disciplina e pela fidelidade, não pelo espírito criativo e altamente organizativo. […] 2) O elemento de coesão principal, que centraliza no campo nacional, que torna eficiente e poderoso um conjunto de forças que, abandonadas a si mesmas, representariam zero ou pouco mais; este elemento é dotado de força altamente coesiva e disciplinadora e também (ou melhor, talvez por isto mesmo) inventiva[…] 3) Um elemento médio, que articule o primeiro com o segundo elemento, que os ponha em contato não só “físico”, mas moral e intelectual (GRAMSCI, 1968, p. 317).

A confluência desses três elementos é necessária para que o partido não seja destruído e mantenha-se na articulação e com integração. O elemento de coesão é o principal, do qual surgem as elaborações e, sem ele, perde-se a unidade, o elemento difuso, em que circulam e divulgam as elaborações, e o elemento médio, que faz “ponte” entre o primeiro e o segundo. Com esta organização e articulação de elementos que se agrupam, forma-se um partido, no sentido empregado por Gramsci, no qual, cada indivíduo supera o seu momento histórico particular. Este implica as suas ocupações cotidianas e as atividades abrangentes, as quais possuem um alcance nacional e internacional (GRAMSCI, 1968).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, buscamos compreender como Gramsci elaborou uma análise sobre os periódicos, principalmente, o papel das revistas como instrumentos de uma reforma intelectual e moral. Para tanto, Gramsci, procurou entender o alcance dos periódicos como meio difusor educacional. Cada periódico possui seu escopo, público leitor, procurando atingir um determinado grupo, tendo em vista a construção de um edifício cultural, uma nova concepção de mundo. De fato, as revistas tornaram-se elementos de difusão de uma nova cultura, de novas ideias, para a conquista da hegemonia.

Assim, as revistas tornaram-se elementos indispensáveis para a prática educativa do proletariado, principalmente, a L’Ordine Nuovo e Il’Grido, que foram experiências que Gramsci obteve na sua atuação de intelectual orgânico. As revistas tornaram-se “campos de batalha” para as chamada guerras de posição, que, segundo Gramsci, é a forma de organizar a sociedade política e culturalmente.

Desta forma, nas páginas das revistas, tornou-se possível o intercâmbio educativo entre intelectuais e proletariado, no qual o educando educa o educador, já que este último nem sempre percebe a realidade dos subalternos. Com o princípio educativo, tornou-se possível que o proletariado turinense deixasse o senso comum para chegar ao bom senso. Assim, compreendessem a própria realidade, os mecanismos da classe dominante para a manutenção do Estado burguês. Pode-se afirmar que as experiências obtidas por Gramsci foram de uma reforma moral e cultural, que culminam na elevação educacional e intelectual do operariado.

O alcance do princípio educativo estende-se tanto ao operariado, quanto ao intelectual orgânico. Este intelectual aprende o que, de fato, é a realidade dos subalternos, uma vez que são suprimidas as noções metafísicas, alienantes dos intelectuais tradicionais, que possuem o papel de manutenção da ideologia da classe dominante. Os intelectuais e o proletariado (povo) possuem nesta perspectiva, protagonismo e capacidade intelectiva para fazer a leitura da sociedade capitalista e propor a reforma intelectual e moral na busca da hegemonia, através da revolução passiva.

REFERÊNCIAS

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1Antonio Gramsci (1891-1937) nasceu em Ales, Sardenha. Intelectual italiano, ativista político e jornalista, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Gramsci foi um aluno brilhante, estudou Literatura na Universidade de Turim, com bolsa de estudos, obtida em um concurso. Foi Secretário Geral do Partido Comunista e Parlamentar, foi preso por um tribunal especial fascista. Na prisão, escreveu a sua mais importante obra Cadernos do Cárcere (seis volumes).

2A expressão “pensador sardo”, faz referência à ilha Sardenha, na Itália, local onde Gramsci nasceu (REIS, 2014).

3“Em Abril de 1919, juntamente com Angelo Tasca, Palmiro Togliatti e Umberto Terracini, Gramsci lança em Turim uma resenha semanal de cultura” (COUTINHO, 1999, p. 24).

4Gramsci foi colaborador nos jornais Il Grido del Popolo, L’Avanti e principalmente L’Ordine Nuovo(REIS, 2014).

5“divenne il problema centrale, divenne l’idea dell’Ordine Nuovo […] divenne per noi e per quanti ci seguivano, il giornale dei consigli di fabbrica” (ARRIGONI, 1988, p. 74).

6nell’ elaborazione degli elementi più emancipatori della cultura populare, in previsione della criazione di una nuova cultura proletaria (MAYO, 2007, p. 61).

8“un processo di organizzazione sociale e di influenza culturale ad ampio raggio” (MAYO, 2007, p. 54)

9Il Grido del Popolo, revista em que Gramsci foi colaborador no período de 1917 a 1918 (REIS, 2014).

11“Lo stesso “Ordine Nuovo” costituì lo strumento mediante cui furono analizzate le produzioni culturali di quel periodo dal punto di vista della classe “subalterna” e i cui interessi la Rivista si proponeva di rappresentare. In realtà, atratraverso i circoli, i consigli di fabbrica, la carta stampata, Gramsci sosteneva un rapporto fra gli intellettuali e gli operai in cui i primi, sulla base della lorto formazione teoretica, agiscono con capacítà direttiva rispetto alle seconde ed allo stesso tempo consentono anche a quest’ultime una certa capacità direttiva, sostenendo un rapporto attivo, di relazioni reciproche, dove ogni maestro è sempre scolaro e ongi scolaro maestro” (SCHETTINI, 2008, p. 12-13).

7“Per Gramsci lo spazio in cui può essere contestata l’egemonia è l’ampio territorio che la sorregge, cioè quello della società civile che è concepita come un luogo di lotta. Egli sosteneva che lo stato, poiché è di fatto sostenuto dalle istituzioni della società civile, non può essere affrontato frontalmente da quelli che aspirano a trasformarlo, per sviluppare un nuovo sistema di relazioni sociali. Gramsci intende quel tipo di confronto come una “guerra manovrata/frontale”. Nella sua visione una gran parte del processo di trasformazione dello stato e del suo apparato coercitivo deve precedere e non seguire la presa del potere. Le persone che lavorano per la trasformazione sociale devono impegnarsi in una “guerra di posizione”: un processo cioè di organizzazione sociale e di influenza culturale ad ampio spettro all’interno del quale trova posto appunto la visione politica di una strategia rivoluzionaria fondata sul passaggio dalla “guerra manovrata” e dell’attacco frontale alla “guerra di posizione” idonea alle condizioni dell’Occidente, dove l’esercizio dell’egemonia è affidato alla conquista del consenso in tutte le principali articolazioni della società civile” (SCHETTINI, 2008, p. 05)

10“L’Ordine Nuovo, il periodico di cui Gramsci, Umberto Terracini e Palmiro Togliatti pubblicarono il primo numero el 19 maggio 1919, fu concepito come una rivista di cultura socialista e quindi come un’importante fonte di educazione degli adulti. Esso costituì lo strumento con cui furono analizzate le produzioni culturali di quel periodo dell’ottica della classe “subalterna”, i cui interessi la rivista si proponeva di rappresentare” (MAYO, 2007, p. 61).

12“Gli intellettuali organici possono servire, se sono omogenei alla classe/gruppo dominante a mediare l’unità ideologica e politica dell’egemonia esistente. All’opposto, se sono organici al gruppo o alla classe subordinata che aspira al potere, essi si impegnano nella guerra di posizione che permette di assicurarsi le alleanze necessarie per avere successo. Se essi sono organici ad un gruppo subalterno, parte del loro compito è contribuire ad una “riforma intellettuale e morale”, che Gramsci sentì come necessaria ed urgente per gettare le fondamenta di una società più giusta” (SCHETTINI, 2008, p. 09).

Recebido: 20 de Abril de 2015; Aceito: 26 de Dezembro de 2017

Contato: Egberto Pereira dos Reis , Av. José Cecílio Ribeiro nº 308, Bairro: Residencial Nova Floresta, Guaxupé|MG|Brasil, CEP 37.800-000

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Doutor em Educação e Mestre em Filosofia, coordenador e professor do Curso de Filosofia do Centro Universitário da Fundação Educacional (UNIFEG) – Guaxupé/MG e professor da Fundação Universitária Vida Cristã (Funvic) – Mococa/SP. E-mail:<egberto@libero.it>.

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Doutor em Educação, professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Email:<josecarlos@rothen.pro.br> e site:<www.rothen.pro.br>.

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